quinta-feira, 28 de maio de 2015

DOS OUTONOS DO AMOR




“Dentro da casa, o mar ressoa como o interior de um búzio”
Ele, deitado no chão, em estado de onda, como quem se esquecia de si, nem queria se achar, só queria olhar para mim, que lhe derramei chuva colhida com o corpo, para que tivesse cheiro e gosto, e ele bebesse um gole daquele meio-dia que ainda se espreguiçava, nos lentos movimentos de suas pálpebras. Era outono, e as ruas forradas por rubras folhas amoleceram a minha pressa e mudaram o rumo da minha tarde. Voltei da cidade vestida do romantismo daquela paisagem. Abandonei a mulher que era engolida pela velocidade cotidiana e enfeitei a casa com a eternidade da minha dança, enquanto espalhava as flores que o caminho me ofertou. Nua, eu era um pássaro que voava devagarzinho de um cômodo a outro, enquanto coava o velho café de sempre, para que ele tomasse, depois do amor... Repousava na janela, digna de uma tela, com minha xícara branca como minha pele, despretensiosamente exposta para ele, que logo alongava as pálpebras como quem me desenhava com os olhos, com uma precisão de esquadros. De costas para ele, sentia o seu fogo aquecer a casa. Engolia meu café lentamente, enquanto o vento acariciava o meu cabelo. A onda que vinha dele jogava o meu quadril pra lá e pra cá. E eu gostava. Nós gostávamos de mastigar bem antes de comer... Então, eu terminava de beber o café e, com a janela aberta, para quem quisesse testemunhar, deixava o mar alagar a casa toda e transbordar para os jardins, as ruas, inundando o outono lá fora.... Eu dava-lhe todas as palavras que seu silêncio precisava. Ele me dava sua língua, que falava, no meio das minhas pernas, um poema de amor, enquanto mordia os morangos que guardei ali, como café da manhã...E ele me dava a porção perfeita de chantilly ...
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(RaiBlue)