quarta-feira, 24 de junho de 2015

INFERNO ASTRAL





náufraga da noite. uma ilha sem estrelas. uma teia escondendo a lua crescente no fundo do peito. e uma saudade pendurada em uma das pontas aponta-me o inferno astral que é morar nesse tempo suspenso. silício esse silêncio. teu cínico sorriso a atravessar meu corpo como um deus. nem um adeus te matou em mim. te metes em qualquer fresta do meu desespero. quando minha carne quente se esfrega na lembrança úmida de tua boca e esquece do amargo de tuas mentiras. me tira do controle. me atira no melhor de tua língua. quando diz sem pronunciar palavras verdades que o corpo não pode negar. teria que queimar-me como se queima um livro. até que não restasse nenhuma pele pra contar dos cheiros das noites insones acesas nos poros. todo dia ensaio um acidente tragando cigarros na esperança de um incêndio de repente. mas no meio da fumaça você surge e eu desisto. entendo a impossibilidade de morrer no fogo porque de fogo sou feita. preciso de um inverno rigoroso. afogar o fogo em goles de realidade. com gelo. muito gelo por favor. pra não ressuscitar o vício de te tragar de novo.
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(RaiBlue)