quinta-feira, 6 de agosto de 2015

DOIS MARES SELVAGENS

E a barba dele roçava meus pensamentos numa insistência do corpo em sentir...e o dia acordava com o arrepio da pele ainda exposta aos seus pelos, arranhando toda minha resistência em não querer pensar...mas os poros não esquecem dos macios fios do desejo atropelando a calma da noite sem aviso prévio...no fundo, eu gostava da desordem que me provocava, chegando, assim, sem planos nem promessas... apenas ele, nu, sem nenhuma bagagem. Éramos iguais: dois mares selvagens que se cruzavam no oceano do tempo, sabendo que tudo é movimento, e que temos que aproveitar a onda...naufragar no mergulho em nós mesmos. E basta.

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(RaiBlue)

sábado, 18 de julho de 2015

POESIA MORTAL

É só deixar o mar bater no corpo. sentir a fúria selvagem da onda dar onda na minha cabeça. basta um mergulho e o fundo desaparece. cresce por dentro o infinito. a imensidão toda das águas cabe nos orbitais dos olhos em órbita no azul profundo. nenhum piscar. o mundo lá fora adormece. acorda o corpo o que não tem corpo e invade o ser pelos poros. a pele retendo o mar pra matar a sede de paz que nunca se alcança. a ilusão é nicotina. o vício a necessidade de escapar. punhos fechados pro alto. liberdade. essa palavra inalcançável pendurada nas asas de todas as borboletas. de todas as cores. nem branca nem negra. porque só sei concebê-la colorida. um dia quando o amor for possível o casulo será rompido. a dor de ter de amarrar as asas finalmente cessará. o coração da África baterá no coração do mundo como um tambor acordando a humanidade. tomara que não seja tarde como essa madrugada crescente que não me deixa dormir. e que, até lá, o mar, meu companheiro de sempre, não me devore com sua poesia mortal.

(RaiBlue)

*Simplesmente extasiada com o filme "Borboletas Negras" !

Versão em áudio: https://soundcloud.com/raiblue-sales/a-poesia-mortal-do-mar


https://soundcloud.com/raiblue-sales/a-poesia-mortal-do-marhttps://soundcloud.com/raiblue-sales/a-poesia-mortal-do-mar

quarta-feira, 24 de junho de 2015

INFERNO ASTRAL





náufraga da noite. uma ilha sem estrelas. uma teia escondendo a lua crescente no fundo do peito. e uma saudade pendurada em uma das pontas aponta-me o inferno astral que é morar nesse tempo suspenso. silício esse silêncio. teu cínico sorriso a atravessar meu corpo como um deus. nem um adeus te matou em mim. te metes em qualquer fresta do meu desespero. quando minha carne quente se esfrega na lembrança úmida de tua boca e esquece do amargo de tuas mentiras. me tira do controle. me atira no melhor de tua língua. quando diz sem pronunciar palavras verdades que o corpo não pode negar. teria que queimar-me como se queima um livro. até que não restasse nenhuma pele pra contar dos cheiros das noites insones acesas nos poros. todo dia ensaio um acidente tragando cigarros na esperança de um incêndio de repente. mas no meio da fumaça você surge e eu desisto. entendo a impossibilidade de morrer no fogo porque de fogo sou feita. preciso de um inverno rigoroso. afogar o fogo em goles de realidade. com gelo. muito gelo por favor. pra não ressuscitar o vício de te tragar de novo.
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(RaiBlue)


quinta-feira, 28 de maio de 2015

DOS OUTONOS DO AMOR




“Dentro da casa, o mar ressoa como o interior de um búzio”
Ele, deitado no chão, em estado de onda, como quem se esquecia de si, nem queria se achar, só queria olhar para mim, que lhe derramei chuva colhida com o corpo, para que tivesse cheiro e gosto, e ele bebesse um gole daquele meio-dia que ainda se espreguiçava, nos lentos movimentos de suas pálpebras. Era outono, e as ruas forradas por rubras folhas amoleceram a minha pressa e mudaram o rumo da minha tarde. Voltei da cidade vestida do romantismo daquela paisagem. Abandonei a mulher que era engolida pela velocidade cotidiana e enfeitei a casa com a eternidade da minha dança, enquanto espalhava as flores que o caminho me ofertou. Nua, eu era um pássaro que voava devagarzinho de um cômodo a outro, enquanto coava o velho café de sempre, para que ele tomasse, depois do amor... Repousava na janela, digna de uma tela, com minha xícara branca como minha pele, despretensiosamente exposta para ele, que logo alongava as pálpebras como quem me desenhava com os olhos, com uma precisão de esquadros. De costas para ele, sentia o seu fogo aquecer a casa. Engolia meu café lentamente, enquanto o vento acariciava o meu cabelo. A onda que vinha dele jogava o meu quadril pra lá e pra cá. E eu gostava. Nós gostávamos de mastigar bem antes de comer... Então, eu terminava de beber o café e, com a janela aberta, para quem quisesse testemunhar, deixava o mar alagar a casa toda e transbordar para os jardins, as ruas, inundando o outono lá fora.... Eu dava-lhe todas as palavras que seu silêncio precisava. Ele me dava sua língua, que falava, no meio das minhas pernas, um poema de amor, enquanto mordia os morangos que guardei ali, como café da manhã...E ele me dava a porção perfeita de chantilly ...
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(RaiBlue)



sábado, 25 de abril de 2015

MAYBE

Bateu a porta e se bateu no mundo, ainda arranhada de amor. Mas agora estava decidida a não mais voltar. Doer lhe inspirava a essas saídas de si, para lugar algum.
Dobrou a primeira esquina. Entrou no primeiro bar - embriagar-se é a melhor forma de esquecer - escreveu num guardanapo. Foi quando ele se aproximou por trás dela e sussurrou-lhe, quase que roçando a barba em seu ouvido:
- Quer um copo de vodca, princesa?
Ela amassou o guardanapo e, se roçando na barba dele, falou:
- Não. Hoje eu quero um corpo em cólera, quente, bem quente e sem gelo. Aliás, um gelo até que cairia bem...O que você acha?
Num misto de susto e excitação, ele respondeu:
- Na minha casa ou na sua?
Ainda sem se olharem nos olhos, ela segurou uma das mãos dele e a direcionou até o seu ventre. Entre o vestido e sua pele não havia nada.
- Aqui e agora - respondeu. E quando terminou de pronunciar a última sílaba, mergulhou os dedos dele em toda sua luxúria. Pegou uma pedra de gelo colocou na boca e lhe ofereceu.
- Agora venha me refrescar... - pronunciou num tom de quem domava um bicho.
Para ela, seria uma válvula de escape. Para ele, não havia como escapar ( e nem queria). E os gritos de Janis, cantando Maybe, embalavam os gemidos deles. Não tinham certeza de nada do que aconteceria amanhã. Bebiam aos goles o hoje.
Ela arranhava a carne dele como quem arranhava o amor. E estava apenas começando ...Agora seria ela quem devoraria sem piedade.
Para um bicho, outro.
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(RaiBlue)

DOS DIÁLOGOS VIAJANTES 1


A gente sai por aí com o amor como meta, e cometa a língua vai se metamorfoseando toda em estrelas no céu da boca iluminando o plexo solar que andava tão chuvoso e então o tempo muda na muda da flor que nasce no peito nascente de um canteiro que se escondia na sombra do tempo que não corria porque interditaram as ruas cardíacas num dia qualquer quando o coração inventou de andar na contramão...mas o amor faz transfusão nas veias da vida e ela vem de volta em alta voltagem trazendo eletricidade para o corpo e estrelas que caem do céu da boca sobre o deserto nosso de cada dia... e então nos mudamos para outra casa, nus, mudamos, mudos, porque o amor comeu todas as palavras....eis quando finalmente podemos ouvi-lo.
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(RaiBlue)

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* Versão em áudio:



COMPULSÃO



sem etiquetas restou tua camisa escrevendo cartas em minha pele, sem aguardar nenhuma resposta. agora ela é um diário onde exorcizo a saudade me esfregando toda nela, enquanto jorro verbos que invento todos os dias. como se estivesse aqui pra te dizer. esse é o único lugar que te encontro. tecido entre algodão e pelos que ainda guardam teu cheiro, que nem a naftalina do tempo apagou. um cheiro forte de um amor daqueles, que de tão graúdo doía de sentir. você foi. a camisa ficou. a gente sempre deixa algo material . uma forma de existir, depois que se vai. nunca se quer ser esquecido. vez em quando, quando aperta o peito, abro a gaveta e me deixo roçar em você como um segredo. ninguém sabe que minhas noites insones ainda são suas. que herdei seus vícios, sua manias, sua inaptidão para o sono. e sua profunda compulsão por sentir tudo, sem medir consequências. tem dias que me visto de você, só pra esquecer de mim, e saio por aí, sem etiquetas, como quem está solta no mundo. mas ninguém sabe da camisa no meu corpo. que nesses dias, estou mais presa do que nunca...

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(RaiBlue)



QUERO-TE HIPÉRBOLE

Caminho pelas primaveras de suas esquinas. espalho as borboletas dos meus cílios sobre o teu silêncio que margeia o céu de dentro. mergulho em tua melancolia escondida sob os jardins da casca que te veste. remexo tuas terras. cavo horizontes subterrâneos só pra nós dois. cravo-te os dentes para que sangre amor. para que sinta e singre. e então seja. qualquer coisa além dessas flores de plástico que insiste em cultivar. dou-te então minha flor. a de lótus. a de vida. a de vulva. e sem camisa (de vênus) devolva-me em eros manchando o tapete. quero em nossos dedos todos os anéis de saturno. deixe esse outono que insiste num amor ameno. quero-te hipérbole do texto que escrevo em tua carne. das noites que virão. noites de verão. azuis cortando o céu da boca como pipas. as línguas mergulhando no infinito vermelho da mente. lá onde é nascente de todo prazer. lá onde borboletas passeiam pelo corpo. e nos dão o voo colorido da viagem...


(RaiBlue)



ESCORRIA...

Parecia. ninguém sabia o que era. sempre era algo que poderia ser. sem nenhuma certeza ia sendo. parecia ser. era ali que habitava. em um futuro do pretérito perfeito. morava na ficção. na fração de minutos que criava. voava. chão feito de nuvens. nevava vez em quando só para brincar. para esquiar no vento de suas montanhas lúdicas. movimentava o ar num sopro. ar rumava enredo. um trecho. depois outro. pedaços soltos que se encontravam no meio de sua bagunça. bagagem feita de chuva que sempre caía no quintal do seu pensamento. tempestades. tisunamis invadiam sua casa-caos-asa. carregava tudo consigo. cada segundo de algum lugar. cada pessoa. ajeitava tudo pra caber. gestos. palavras. silêncios. só não cabia em si. sempre por um se ia sendo. mesmo não sabendo o quê. parecia transbordar. mas bordava no avesso um vazio. coração vazado batendo no mundo. surdo. surto. saliva. a língua derramada no papel. sua camisa de força. de vênus. por instantes era. sabia pelo gozo. molhava. era sua umidade mais abundante. quando a palavra jorrava vida em seu peito seco. e escorria até o meio das pernas. era o sangue do coração. era menstruação. era toda ela ali sendo. doída e doida. qualquer coisa já era alguma. e a salvava das longas ausências de si. soltava os guarda-chuvas. e deixava-se escorrer.podia-se ouvir suas gargalhadas no final.


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(RaiBlue)


domingo, 19 de abril de 2015

TEJO DO CORAÇÃO

O céu penetrando a terra, jorrando gozo natural, fecundando a tarde que arde silenciosa no quarto escuro de dentro...Umidades...A cidade e a carne encharcadas...Trânsito paralisado, enquanto transitas, livremente, pelas ruas fluviais do meu corpo, fazendo festa, nesse quarto (de lua crescente) dos teus olhos a lumiar as águas vespertinas do meu ventre, ao beberes as gotas de uma outra chuva ..., morna..., delinqüente,... que te embriaga em plena tarde de maio, num lapso da dúvida diante do raio estrondoso do desejo sobre o Tejo do coração...

Lá fora, a gaita da chuva toca...e tudo sussurra a noite que vem ...com promessas de grandes inundações...

(RaiBlue)


ANTÍDOTO OU VENENO

“Eu só confio nas pessoas loucas, naquelas que são loucas para viver, loucas para falar, loucas para serem salvas, desejosas de tudo ao mesmo tempo, que nunca bocejam ou dizem uma coisa corriqueira, mas queimam, queimam, queimam…”

...estou sempre na estrada... à beira de mim... Necessito ir além desse abismo que é ser eu. Não há o caminho. E só há sentido no sem sentido, onde tudo cabe, como que para compensar o vazio corrosivo de não pertencer. Engulo tudo que vejo pela frente. Não mastigo. Não me interessa a digestão. A pós-modernidade me deu como matéria-prima a ansiedade-cor-de-chumbo. É um tiro na calma. Eu quero só encher, encher..., até explodir como um gozo na noite mais devassa, espumando na minha língua. Prostitua é a vida vendida por qualquer migalha de amor. Cato todas. Cactos por todo lugar. Secura na boca. Álcool. Qualquer coisa que arda e molhe e me atire pra longe da minha memória. Alzheimer. Hoje eu só quero escrever o que não vivi ainda, mas existe em algum lugar aqui dentro. De outras vidas? De outro tempo? Não me interessa nada que não seja esse presente imperfeito indefinido. Provisória. Promissórias. Não terei que pagar nada no juízo final. Tudo fétido sob o perfume francês. Tudo fútil e fugaz como essa fumaça que me faz esquecer. Até meu sangue é volátil. Não há genética que me identifique. No meu gráfico, não há ponto de origem, nada cartesianamente planejado. Nem eu fui. Matematicamente uma equação que não tem solução no conjunto real. Talvez no vazio. Um vazio cheio de possibilidades que pintam o céu de um azul-melancólico-intenso. Minha carne queima antecipadamente nas curvas dessa estrada. Santa inquisição que me salva da mediocridade humana de ser sempre o que esperam, enquanto eu me desespero nessa inconsistência de mim. Mas é um desespero doce. Bebo como a um antídoto. Extraio a melancolia das veias e injeto na palavra. E ela alucinada vai me levando como uma amante que conhece bem meus desejos mais pervertidos (que na verdade são de todos). E a angústia vira gozo. Tudo de qualquer jeito é sal. Que eu lambo. Que me lambem. Sede. Cada vez mais. Sou um sertão no meio da cidade. E, das tempestades de areia, faço uma tenda e me deito e me deleito nos pequenos oásis que se abrem em pleno caos. Brigo com Crhonos que insiste em provocar minha mente. Entorpeço-o com uma “seda” bem feita para as viagens, e ele, por horas, me esquece e me deixa tecer as rotas, as retas, os ritos que invento para me sentir renascendo, numa constante fuga de uma inexistência anterior, sempre ao encontro de um desconhecido, que de dentro do meu próprio abismo possa emergir, me oferecendo um gole de vida... E eu que já morri tantas vezes , On The Road vejo a eternidade despontar na vida que escrevo para além dessa página..com as palavras pulsando em cada curva do meu coração, entre farpas e harpas...serpentes e maçãs...
Antídoto ou veneno...agora tudo que eu quero é dormir...


(RaiBlue, julho de 2011)