sábado, 25 de abril de 2015

COMPULSÃO



sem etiquetas restou tua camisa escrevendo cartas em minha pele, sem aguardar nenhuma resposta. agora ela é um diário onde exorcizo a saudade me esfregando toda nela, enquanto jorro verbos que invento todos os dias. como se estivesse aqui pra te dizer. esse é o único lugar que te encontro. tecido entre algodão e pelos que ainda guardam teu cheiro, que nem a naftalina do tempo apagou. um cheiro forte de um amor daqueles, que de tão graúdo doía de sentir. você foi. a camisa ficou. a gente sempre deixa algo material . uma forma de existir, depois que se vai. nunca se quer ser esquecido. vez em quando, quando aperta o peito, abro a gaveta e me deixo roçar em você como um segredo. ninguém sabe que minhas noites insones ainda são suas. que herdei seus vícios, sua manias, sua inaptidão para o sono. e sua profunda compulsão por sentir tudo, sem medir consequências. tem dias que me visto de você, só pra esquecer de mim, e saio por aí, sem etiquetas, como quem está solta no mundo. mas ninguém sabe da camisa no meu corpo. que nesses dias, estou mais presa do que nunca...

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(RaiBlue)



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